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sexta-feira, 22 de abril de 2011

O Show

─ Isso aqui tá incrível, não?!?!
─ O que você disse?
O barulho ensurdecedor não a deixou ouvir o que disse aquele estranho.
A arquibancada vibrava ao som da banda Restart. Jovens frenéticos se agitavam. Ninguém ficava sentado ou parado.
O campo parecia um formigueiro de gente se agitando no embalo das luzes estrobóticas multicoloridas.
Sem perder o ritmo e percebendo a indiferença da garota, ele encostou os lábios bem próximos da orelha dela. O ar que saiu de seus pulmões foi provocativo, e o sussurro, insinuante como a flecha de um cupido: “Você é incrível!”.
Ela olhou para o rapaz e a imagem de um deus grego se formou em sua mente. O arrepio que a transpassara e se instalara na quarta vértebra de sua espinha nem de longe se igualava ao bambear de suas pernas.
Ele a amparou com seus braços firmes. Parecia um guerreiro voltando de uma batalha para proteger sua amada com seu arco de ouro. Poderia até jurar que ouvira uma lira tocando. O mundo podia acabar ali mesmo, naquele instante, nada mais importava.
Por frações de segundos pôde imaginar o cartaz que anunciara o show e perceber que não havia nenhuma promessa de brinde na aquisição do ingresso. Quem diria que aquele evento juvenil poderia mudar sua vida? A Camila não poderia ir. A Paulinha estava viajando. Não tinha nenhuma companhia. Pensara até em não ir também. Mas resolvera, pois não haveria outra oportunidade. Afinal de contas, não tinha sido nada fácil arrancar o dinheiro do coroa para comprar o ingresso. E agora estava ali, amparada pelos braços da verdadeira encarnação de...
─ Apolo, seu escravo...
Estaria sonhando? Beliscou-se e gritou com a dor. Ele sorriu o sorriso dos deuses. Ela recompôs-se para acompanhar o show. Seu coração, porém, batia num outro ritmo, noutro compasso, numa nova cadência, noutra frequência cósmica. Pura magia.
Braços que se roçam, mãos que se entrelaçam, pernas que falseiam, corpos que gritam e bocas que falam: com elogios, com promessas, com beijos que parecem eternos.
─ Você quer um refrigerante?
Ela pensou em não aceitar. Uma insegurança balançou seu coração. Sexto-sentido, coisa de mulher. Aceitou assim mesmo e ele se foi. Pôde vê-lo sumir no meio da multidão.
O show prosseguia, e ele não voltava. O show acabou, e ele não chegara. O estádio ficou vazio, as luzes começaram a serem apagadas...
Ela se levantou, espanou a poeira e se foi. Tinha ainda um sorriso nos lábios e o andar mais firme do que nunca.

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