Rubem Braga já passara por isto. Já li também muitos relatos a respeito. Talvez seja sina de todo ser. O fato é que, lá pelos idos de 1954, esta mesma experiência rendeu ao escritor uma crônica de nome Era um sonho feliz, que, reunida a outras no belo livro Recado de primavera, foi publicada em 1984.
Sabe aquela sensação de não sabermos se estamos dormindo ou acordados? Pois é. E o mais interessante é que, ao acordar, reconhecemos o ambiente familiar à nossa volta, mas ainda sentimos que o que vivemos fora bem real, pois o gosto está na boca, o cheiro na pele e a visão, pálido manto diáfano que turva, mas não esconde a verdade, volta-nos em clipes oníricos, formando um mosaico em nossa mente, uma colcha de retalhos, uma calçada de Ipanema.
Eu estava num campo. Andava pela relva e sentia a brisa de outono me fazer carinhos. Pássaros entoavam cantos diversos em silvos babilônicos. Alguns davam voos rasantes; outros se exibiam ou construíam ninhos para suas amadas. Um pouco mais à minha frente, o capim alto parecia plantação de trigo, sapezal, não sei bem bailava em movimentos sinuosos. Ora escondia ora revelava uma parte do rio Paraíba que corria incólume, banhando corpos, levando os pecados de Iara para Iemanjá. Ao fundo, podia ver a silhueta da Serra da Mantiqueira contornando até onde minha vista fosse. Quebra Cangalha, Marins, Galinha Choca...
Sentei-me na grama e fechei os olhos. Lancei o corpo para trás, pendendo um pouco a cabeça. Ainda de olhos cerrados, imaginava o céu limpo do outono borrado por alguns chumaços de nuvens. Do jeito que estava, imaginava às minhas costas o horizonte como um grande peixe escamado. Perdi-me em devaneios e talvez sonhei o sonho do meu sonho num cochilo etéreo. Delírio ou não, ela estava lá. Passeava para cá, ia para lá como se flanasse pelo jardim. Firmei a vista e achei seu rosto familiar. Sua face delicada era uma, era outra, era todas as outras faces que eu queria. Ela passava rápido e cada vez mais se achegava. Trajava roupas indianas, delicadas vestes transparentes, que não vulgarizavam sua beleza, realçavam-na ao sopro do vento. Agora tinha a certeza de que sonhava e não queria acordar daquele sonho.
Ela parou. Eu me levantei e estendi-lhe os braços. Por alguns segundos, tive medo de ser ignorado e padecer eternamente com as mãos estendidas para o infinito. Mas ela chegou, tocou-as, pegando-as delicadamente. Eu nunca a vira tão linda como naquele dia. Senti minha face corar com o sorriso que ela me deu. Teria lido meus pensamentos? Eu lia os seus... Ela me puxou, olhou bem nos meus olhos, e eu olhei nos seus. Os detalhes da maquiagem, a gota na testa, o perfume... Eu a achava singela, naturalmente pura. Num enleio súbito, me abraçou; primeiro, suavemente, em seguida indefinidamente. Eu era dela, ela, minha. Sentia o calor de seu corpo inundando minha alma. Não queria mais que o mundo acabasse. Queria apenas sorver aquele prazer edênico. Já não tinha mais medo de morrer. Soube ali que a vida é perene. Uma voz, então, ecoou em meus ouvidos: “Vá, sorria; abrace todas as pessoas que vir”.
Fui sugado e, de repente, abri os olhos em minha cama. Sentei-me. Olhei para os lados. Eu estava só. Tentei fechar os olhos, não adiantou. Levantei-me e fui para o quintal. Devia ser quase umas cinco horas. A madrugada era fresca. Algumas canções martelavam minha cabeça. Olhei para o mata-borrão do céu e me encantei com a bela rainha. Entendi o que seria dormir nos braços morenos da lua, embora não estivesse em Itapuã. Fui tomar banho, preparar minhas coisas, pois precisava trabalhar. O sonho não saía de minha cabeça. No caminho de casa até o local que pegava carona, cruzei com um estranho que me sorriu. Estranhei, mas correspondi ao sorriso dele. E assim foi com mais um, mais outro e outros tantos. Uma senhora que fechava o portão e acenava para o filho não se conteve. Além do sorriso, me desejou um bom dia. "Vá com Deus! Bom trabalho..."
— Fica com Ele, minha senhora...
E ela escancarou-me seus dentes alvos, brancos como a nuvem do meu sonho.
Enquanto esperava no ponto, cumprimentava a todos com um sorriso, às vezes um meneio de cabeça. E todos correspondiam ao meu aceno com um sorriso lírico.
A carona chegou, e entrei sorrindo. Já não me continha mais. Meu amigo se espantou e sorriu para mim. Não podia abraçá-lo no carro, mas apertei-lhe a mão como nunca o fizera. Ríamos, ríamos muito. Não havia tristeza, só a alegria nos ungia. No trabalho, cada encontro com um colega ou com um amigo transformava-se em festa. Todos comungaram naquele dia, celebrando a vida, praticando o amor. E o dia voou.
De volta para casa, à noitinha, fiquei destramando com minha família o emaranhado de meu sonho e as conseqüências de eu ter seguido o conselho daquela diva. Minha esposa encenou um ciumezinho. Meus filhos me “tiraram” com a história. O fato é que pensamos juntos que se cada um a quem sorri, sorriu para outras pessoas e estas para outras tantas, quanta gente não ficara feliz naquele dia! Tinha saído de minha cidade para trabalhar noutra cidade e entrado em contato com outras pessoas de outras cidades que também retornaram para suas cidades e se encontraram com outras pessoas de outras cidades... Uma amiga me falou que sorriu e abraçou uma pessoa naquele dia que viajou para outro país...
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