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terça-feira, 12 de abril de 2011

Um Sonho de Outono

Rubem Braga já passara por isto. Já li também muitos relatos a respeito. Talvez seja sina de todo ser. O fato é que, lá pelos idos de 1954, esta mesma experiência rendeu ao escritor uma crônica de nome Era um sonho feliz, que, reunida a outras no belo livro Recado de primavera, foi publicada em 1984.
Sabe aquela sensação de não sabermos se estamos dormindo ou acordados? Pois é. E o mais interessante é que, ao acordar, reconhecemos o ambiente familiar à nossa volta, mas ainda sentimos que o que vivemos fora bem real, pois o gosto está na boca, o cheiro na pele e a visão, pálido manto diáfano que turva, mas não esconde a verdade, volta-nos em clipes oníricos, formando um mosaico em nossa mente, uma colcha de retalhos, uma calçada de Ipanema.
Eu estava num campo. Andava pela relva e sentia a brisa de outono me fazer carinhos. Pássaros entoavam cantos diversos em silvos babilônicos. Alguns davam voos rasantes; outros se exibiam ou construíam ninhos para suas amadas. Um pouco mais à minha frente, o capim alto  parecia plantação de trigo, sapezal, não sei bem  bailava em movimentos sinuosos. Ora escondia ora revelava uma parte do rio Paraíba que corria incólume, banhando corpos, levando os pecados de Iara para Iemanjá. Ao fundo, podia ver a silhueta da Serra da Mantiqueira contornando até onde minha vista fosse. Quebra Cangalha, Marins, Galinha Choca...
Sentei-me na grama e fechei os olhos. Lancei o corpo para trás, pendendo um pouco a cabeça. Ainda de olhos cerrados, imaginava o céu limpo do outono borrado por alguns chumaços de nuvens. Do jeito que estava, imaginava às minhas costas o horizonte como um grande peixe escamado. Perdi-me em devaneios e talvez sonhei o sonho do meu sonho num cochilo etéreo. Delírio ou não, ela estava lá. Passeava para cá, ia para lá como se flanasse pelo jardim. Firmei a vista e achei seu rosto familiar. Sua face delicada era uma, era outra, era todas as outras faces que eu queria. Ela passava rápido e cada vez mais se achegava. Trajava roupas indianas, delicadas vestes transparentes, que não vulgarizavam sua beleza, realçavam-na ao sopro do vento. Agora tinha a certeza de que sonhava e não queria acordar daquele sonho.
Ela parou. Eu me levantei e estendi-lhe os braços. Por alguns segundos, tive medo de ser ignorado e padecer eternamente com as mãos estendidas para o infinito. Mas ela chegou, tocou-as, pegando-as delicadamente. Eu nunca a vira tão linda como naquele dia. Senti minha face corar com o sorriso que ela me deu. Teria lido meus pensamentos? Eu lia os seus... Ela me puxou, olhou bem nos meus olhos, e eu olhei nos seus. Os detalhes da maquiagem, a gota na testa, o perfume... Eu a achava singela, naturalmente pura. Num enleio súbito, me abraçou; primeiro, suavemente, em seguida indefinidamente. Eu era dela, ela, minha. Sentia o calor de seu corpo inundando minha alma. Não queria mais que o mundo acabasse. Queria apenas sorver aquele prazer edênico. Já não tinha mais medo de morrer. Soube ali que a vida é perene. Uma voz, então, ecoou em meus ouvidos: “Vá, sorria; abrace todas as pessoas que vir”.
Fui sugado e, de repente, abri os olhos em minha cama. Sentei-me. Olhei para os lados. Eu estava só. Tentei fechar os olhos, não adiantou. Levantei-me e fui para o quintal. Devia ser quase umas cinco horas. A madrugada era fresca. Algumas canções martelavam minha cabeça. Olhei para o mata-borrão do céu e me encantei com a bela rainha. Entendi o que seria dormir nos braços morenos da lua, embora não estivesse em Itapuã. Fui tomar banho, preparar minhas coisas, pois precisava trabalhar. O sonho não saía de minha cabeça. No caminho de casa até o local que pegava carona, cruzei com um estranho que me sorriu. Estranhei, mas correspondi ao sorriso dele. E assim foi com mais um, mais outro e outros tantos. Uma senhora que fechava o portão e acenava para o filho não se conteve. Além do sorriso, me desejou um bom dia. "Vá com Deus! Bom trabalho..."
— Fica com Ele, minha senhora...
E ela escancarou-me seus dentes alvos, brancos como a nuvem do meu sonho.
Enquanto esperava no ponto, cumprimentava a todos com um sorriso, às vezes um meneio de cabeça. E todos correspondiam ao meu aceno com um sorriso lírico.
A carona chegou, e entrei sorrindo. Já não me continha mais. Meu amigo se espantou e sorriu para mim. Não podia abraçá-lo no carro, mas apertei-lhe a mão como nunca o fizera. Ríamos, ríamos muito. Não havia tristeza, só a alegria nos ungia. No trabalho, cada encontro com um colega ou com um amigo transformava-se em festa. Todos comungaram naquele dia, celebrando a vida, praticando o amor. E o dia voou.
De volta para casa, à noitinha, fiquei destramando com minha família o emaranhado de meu sonho e as conseqüências de eu ter seguido o conselho daquela diva. Minha esposa encenou um ciumezinho. Meus filhos me “tiraram” com a história. O fato é que pensamos juntos que se cada um a quem sorri, sorriu para outras pessoas e estas para outras tantas, quanta gente não ficara feliz naquele dia! Tinha saído de minha cidade para trabalhar noutra cidade e entrado em contato com outras pessoas de outras cidades que também retornaram para suas cidades e se encontraram com outras pessoas de outras cidades... Uma amiga me falou que sorriu e abraçou uma pessoa naquele dia que viajou para outro país...

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