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quinta-feira, 14 de julho de 2011

Casa da bagunça


A casa de Arnaldo andava uma bagunça só. Parecia que um furacão passara e deixara só destruição. Desolação pura! E não era de hoje. Há muito que a observava e jurava dar um jeito em tudo. E como sempre há uma gota d’água que transborda o copo, resolveu dar um basta depois que abriu sua gaveta de roupas e encontrou calcinhas e sutiãs. Foi como se tudo à sua volta ficasse realçado. O que se via em seu entorno era catastrófico. As peças femininas eram o de menos.
Saiu do seu quarto e resolveu fazer uma vistoria na casa toda. Parecia que andava sobre um campo minado. Pulava aqui, saltava acolá, tentando encontrar espaço vazio no chão. Catava calçados, roupas, toalhas, como quem brincava de pegar pedrinhas da amarelinha riscada no piso. As coisas teriam de mudar!
Apito na boca, sala de estar, todos reunidos.
― A partir de hoje, as coisas vão mudar por aqui!
― Calma, amor, olha o coração...
― Que coração, que nada...
― É isso aí, paizão ─ gritou o mais velho, interrompendo-o. Mostra pra elas quem manda nessa casa.
― Chega de blablablá! Cada um vai ter uma tarefa pra fazer todos os dias.
― Eh! paizão, tô gostando disso não. Pega leve véio...
― Bem feito, retrucou a mais nova, você é um come dorme. Nem seu prato você lava...
― Cala a boca, pirralha!
― Dá pra andar logo com essa baboseira? ─ reclamou a filha do meio ─ O Zelão ficou de me pegar às oito...
― E não tem Zelão nem Zelinho! Todo mundo vai juntando o que é seu pro faxinão.
― Mas já são mais de sete horas, amor...
― Não interessa, vamos ─ e soltou o silvo determinando o início da contenda.
A mulher se movimentou e foi pegar vassoura, rodo, pano de chão, com balde e tudo. Sabia que, quando um burro empaca, não há mula que o faça andar. Arnaldo ficou satisfeito e se preparou par ir ao banheiro. Precisava aliviar as tensões.
― Pó parar, banheiro interditado para limpeza. Se quiser, vai no quintal... ─ sentenciou a esposa.
Saiu de fininho e foi para o quarto. Precisava trocar a roupa da fábrica.
― Onde o senhor pensa que vai? Não, não, não...
Só lhe restava a sala. Correu para sentar em sua poltrona, mas encontrou tudo de pernas para o ar.
― Mas, onde é que eu vou ficar?
― Que tal o quintal? ─ riu a pequenina com a rima.
― Nem pensar, gritou o garotão, tô dando duro aqui também.
― Então vou pro bar tomar uma cerva.
─ Só se for voando! O corredor está interditado. Acabei de passar cera.
Que droga!!! Estava sitiado em seu próprio reduto e já começava a se arrepender do barulho que fizera. Aquela faxina poderia durar horas. Como não tinha mais jeito, arrancou as botinas, arregaçou as calças e começou a puxar a água do banheiro com o rodo.
Puxa pra cá, empurra pra lá... Esbarra na mulher, joga água mais pra cima... A esposa, irritada, reclama. Como Arnaldo nem liga, ela não se contém e responde à altura. A guerra começa!
─ Pega essa, se você for bom... ─ E tome balde d’água na cara.
─ Que tal esse esguicho, meu amor?!
Ela antecipou e agarrou a mangueira com força. Por alguns milésimos de segundo, estavam frente a frente, olho no olho, dentes cerrados, fogo nas ventas. Bufavam e rosnavam como dois animais. Exalavam o cheiro de macho e de fêmea. Um perfume primitivamente lírico de séculos de civilização. Enfim, os dois travaram uma batalha corpo a corpo, numa disputa que terminou no chão. O barulho fez todos se aproximarem. A menor queria intervir, mas os mais velhos não deixaram.
― Deixa, maninha, eles estão se entendendo.
― Mas vão acabar se machucando...
― Vão não, sua bobinha, eu e o Zelão...
― Menos, mana, menos... ─ interrompeu o garotão, cortando os detalhes sórdidos do embate.
Marido e mulher deixaram de ser pai e mãe. Os corpos molhados, a roupa colada ao corpo, o semblante de felicidade... Pareciam crianças brincando com água no verão.
― Vamos terminar nossa faxina, gente ─ sentenciou o filho mais velho com um sorriso maroto, encostando a porta suavemente.
Com o tempo, a bagunça voltou ao que era, mas a família nunca mais foi a mesma.


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