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quinta-feira, 21 de julho de 2011

Família é tudo


Olhou para o casal e não gostou do que viu. Sua aura estava amarelada, sem luz. Uma neblina turvou as feições de seus amigos. O ar estava pesado e opressor, e o cômodo ficou pequeno demais para os três. A mulher pigarreou e foi para a cozinha, tinha de finalizar o jantar. Tikinho ainda brincava no quintal. O lusco-fusco ressaltava as silhuetas do menino e da gatinha. Cauê passou a mão na cabeça. Caminhou até o visitante para falar-lhe com reservas.
─ Ela anda desassossegada, amigo. Não sei o que fazer mais. Às vezes ralha com o menino sem nenhuma precisão. Comigo, então...
─ E o amigo, o que tem feito?
─ Tenho pedido a Ele paciência, muita paciência ─ ergueu as mãos e o olhar para o alto.
Gafanhoto ficou ensimesmado. Lembrava-se de Mestre Zen que dizia que família é tudo na vida de um ser.
─ Mais do que paciência, precisas de cuidados contigo e com os teus. O que fazes nos teus dias e nas tuas noites?
─ Trabalho, ora! Trabalho dia e noite para o nosso sustento.
─ Cuidas só da barriga e achas suficiente? Como fica a alma? Como fica o espírito? Será que tu, Cauê, conheces teus defeitos?
Gafanhoto não percebera que elevara o tom de sua voz. Estava sendo duro com o amigo. Cauê abaixou a cabeça. Então, era apenas ele o responsável pela insatisfação matrimonial?
─ Não, amigo, não penses nisso. O que digo é que, com cada farpa trocada por nossa intolerância, perdemos um pedacinho de nossa identidade. E cada lasca de identidade perdida é uma pequena fissura em nossas almas. E as pequenas fissuras de nossas almas podem se juntar e criar um abismo sem fim para nossa família.
Cauê virara-se de costas para Gafanhoto. Este não pensou muito e puxou o amigo até a janela.
─ Olhe, companheiro, olhe bem para teu filho. Percebes como só podes ver sua silhueta? A escuridão começa a tomar conta do seu dia.
Cauê saiu até a porta, chamou o filho e o abraçou com ternura, pegando-o no colo. Tikinho estranhou a atitude daquele homem duro.
─ Você está chorando, papai. Que foi?
─ Nada, meu amor, nada. Um cisco caiu no meu olho. Entra. Vá lavar as mãos para o jantar.
Tikinho saiu correndo em direção à tina d’água. Nina entrou miando. Roçou a cabeça na perna de Cauê. Ele se abaixou, ficou de joelhos diante do animalzinho e o afagou com suas mãos calejadas. O felino parecia querer desenhar um oito no chão.
Gafanhoto puxou seu amigo  pelas mãos, levantando-o.
─ Olhe, Cauê, tu tens de cuidar de tua família como cuidas de tua horta.
Aci entra na sala.
─ O jantar está quase pronto.
Cauê aperta a mão de Gafanhoto e lhe sorri. Vai em direção à mulher. Tikinho corre pelo corredor, brinca com sua gatinha. Gafanhoto chega até a porta da cozinha e vê Cauê preparar a salada. Desfolha e lava a alface, estica a mão para pegar o tempero e esbarra na esposa. Os dois se misturam no ambiente. Aci coloca na boca do marido uma prova da iguaria que preparara. Ele lambe os dedos da mulher, fechando os olhos. Os dois riem com uma cumplicidade adolescente. O ambiente já não está mais neblinoso. Gafanhoto confere a aura dos amantes, vira-se e vai lavar as mãos.


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