Abriu os olhos, como se ainda dormisse o sono eterno, e observou cada detalhe do quarto. A pintura em tom pastel transmitia paz e tranquilidade ao seu frágil coração. Em nada aquele lugar lembrava-lhe os hospitais de sua infância. Cada parede tinha uma cor, e os móveis combinavam com os tons e semitons adotados para o ambiente. A iluminação não agredia, valorizava um jardim de inverno projetado no fundo do quarto. Era como se tivesse uma sala de estar bem ali, contígua à sua suíte. Frigobar, televisão, poltronas e uma cômoda compunham o cenário familiar. De seu corpo, saíam tubos e dutos que, ligados a máquinas, garantiam-no o mínimo para a vida.
─ Oi, filho...
A voz tomou conta do ambiente.
─ Pai... ─ virou a cabeça com dificuldade para enxergá-lo.
─ Calma, vou ficar de frente pra você me ver melhor... Você está estragadinho, hein!?
─ E você tá ótimo... Parece até que tem a minha idade. O tempo não passa pra você...
─ Talvez eu esteja me cuidando melhor agora, e encostou o rosto no rosto do enfermo.
Carlos pôde sentir um cheiro familiar que não sentia há muito. Família é tudo.
─ Deixa eu te ajudar.
Desvencilhou o filho daqueles tubos e com carinho fê-lo levantar-se e caminhar até a poltrona.
─ Você não vai mais precisar dessas geringonças ─ amparou-o e sentou-se de frente para o filho.
─ Por onde você andou, véio?
─ Por aí... E o que você andou fazendo com seu corpo?
─ Sozinho, a gente só come porcaria.
─ É, sei disso...
Por alguns segundos, o silêncio se intrometeu e tomou conta da conversa. Os olhares se distanciaram e, quando se encontraram, não conseguiram negar as rusgas.
─ Por que você sumiu, pai?
─ Por que você não me procurou, filho?
─ Achei que você não queria mais me ver...
─ Por quê?!
─ As nossas brigas...
─ Você é um cabeça dura, Carlos. Não percebe que depois de tanto tempo todos os motivos são fúteis?!
─ Pode ser, mas você pegou pesado...
─ É... Com certeza, fui duro contigo em alguns momentos. Mas...
─ Mas o quê?
─ Era o jeito que se educava naquela época...
─ Gritando?! Batendo?! Espancando?!
─ Você não se esquece daquela surra...
─ Eu tinha quase dezoito anos. Já era um homem feito. E se eu te enfrentasse?
─ Você era ruim, né? Nem chorar, chorou. Se sua mãe não tivesse entrado no meio...
─ Apesar de tudo, eu te respeitava...
─ É, mas depois você me deu o troco, lembra?
─ Do que você está falando?
─ Daquele emprego que te arrumei, e você abandonou enquanto eu estava de férias. Tinha sido difícil encaixar você naquela fábrica. Não tinha emprego na época, muita gente estava desempregada...
─ Mas você me colocou pra quebrar pedra, carregar saco na cabeça... Como podia querer que eu ficasse? Cada saco que eu virava, parecia estar virando em cima do que eu tinha estudado...
─ Tinha planos pra você quando eu voltasse.
─ Só que você não falou nada, como eu podia imaginar...
─ É, nunca conseguimos imaginar coisas boas.
─ Mas você viu que eu estava certo! Terminei minha faculdade e me dei bem na vida...
─ Sem a minha ajuda, não é?
─ Não é bem assim, pai.
─ Tudo bem, eu fiquei orgulhoso de você. Só não precisava esfregar isso na minha cara.
Acabou de falar e se levantou para pegar um copo d’água para o filho que agradeceu. Tomou um gole e devolveu ao pai que, sem-cerimônia, bebeu da mesma água, como se comungasse com ele. Sentou-se novamente e perscrutou o semblante do filho.
─ Quando você se casou e foi embora, sabia que não o veria tão cedo.
─ Você nem foi ao meu casamento...
─ Fui sim, estava lá, escondido.
─ Por quê?
─ Nem eu sei, meu filho.
─ Quando a Paulinha nasceu... E o Renan... Você viu como está seu bisneto, pai?! Você viu?!
─ Você pode não acreditar, filho, mas eu acompanhei tudo. Aliás, tenho acompanhado tudo. Seu crescimento profissional, sua separação...
─ Mas, pai, quando eu me separei, você já tinha...
E antes que completasse a frase, ouviu o aparelho disparar um som agudo que fez doer seu peito. Um médico e uma enfermeira entraram correndo no quarto e se debruçaram sobre o moribundo que estava no leito.
Carlos se levantou e começou a observar aquela luta insana para reanimar o doente desfalecido. Eletrochoques eram aplicados, e o corpo parecia levitar. Enquanto isso, rodava em volta da cama. O som da máquina se tornou constante, Um silêncio surdo foi tomando conta do ambiente. Todos pararam desolados. Desligaram os equipamentos e antes que cobrissem o corpo, Carlos pôde ver o próprio rosto no cadáver. Levou um susto. Recuou...
─ Vamos, o pai estendeu-lhe a mão, vim te buscar.
Saíram os dois pelos corredores do hospital como muitas vezes saíram para pescar, soltar pipa, jogar futebol.
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