Aquela aula estava insuportável. Muita bagunça, pouco estudo e nenhuma perspectiva de mudança. O professor recém-chegado parecia ser bem-intencionado. Será que ele conhecia a fama da escola? Dos alunos? Daquela turma? Será que ele sabia que não parava professor naquele santuário do saber?
Educado, bem-vestido, fala mansa, respeitoso até. O que fazia por aquelas bandas? Bem se via que podia conseguir emprego em escola melhor. Talvez até em uma particular, de gente rica. Parecia culto, viajado...
Tão absorto que estava com minhas ruminações que nem percebi o sinal. O bando saiu em disparada. Parecia um tsunami devastando o horizonte da educação. O professor não se abalou. Limitou-se a acenar para um e para outro dando vivas e despedidas. Fiquei perturbado com aquela cena, arrumei minhas coisas e não me contive. Antes de sair, perguntei-lhe por que não era mais enérgico, mais firme com a turma, mais exigente com o estudo, mais rigoroso com as cobranças...
─ Por que o senhor está sempre sorrindo? Parece que tudo é brincadeira...
─ E não deve ser...
─ Não! Outros gritam, batem na mesa, dão punições pra gente aprender. Mandam para a diretoria. E se não melhoramos, suspendem e até expulsam infratores da escola!
─ E vocês aprendem o que com isso?
─ Aprendemos a ficar calados, a obedecer, a fazer o que eles mandam. Aprendemos a gritar, a brigar, a xingar também...
Quando terminei, percebi o sorriso maroto triscar sua face. Era como se eu estivesse olhando para a personificação da Monalisa.
Abaixei a cabeça, meu olhar se confrangeu. Fiquei confuso. De nada tinha valido eu ficar um pouco mais para exigir uma atitude daquele professor. Ele era diferente dos outros.
─ Escuta, meu filho, pegando-me as mãos, a educação tem um sentido que só se revela com o tempo.
Ele me puxou e me fez sentar numa carteira. Olhou bem nos meus olhos, e percebi que os dele brilhavam. A confiança tomou corpo em sua voz.
─ Se até o final do ano vocês não forem outros, prometo-lhe que deixo meu cargo.
─ Como os outros fizeram?
─ Não, meu filho, eu sei o que estou fazendo. Você já ouviu falar de Ghandi? Sabia que ele libertou um país sem praticar nenhum ato violento? Enfrentou o exército sem disparar um tiro ou revidar a qualquer agressão?
─ Tá tudo certo, tá tudo bem, e se o senhor não conseguir e tiver que deixar seu cargo, o que vai fazer?
─ Bem, isso não vai acontecer, pois você mesmo já me provou que estou no caminho certo. Mas, se a turma toda não chegar ao ponto que espero, vou me recolher e meditar para descobrir o que foi que eu fiz de errado e tentar novamente.
Soltei-me de suas mãos, levantei-me e saí calado daquela sala de aula sabendo que falara com um verdadeiro mestre.
Muito interessante esse conto.
ResponderExcluirSua essência toca fundo a alma do leitor.
Voltarei mais vezes para ter acesso a textos de bom gosto.