─ Mãe, a senhora me tira daqui?
A mulher estremeceu, parou com a faxina e congelou. Parecia um iceberg. Na realidade, uma gelatina granulada de frutas. Virou-se devagarzinho para o berço e olhou calmamente para o filho, que repetiu em alto e bom som:
─ Por favor, mamãe, me tira do berço?
O grito que sucedeu estrugiu o ar, deslocando-o como uma onda. As janelas vibraram com o agudo materno. O quarteirão inteiro estremeceu. Nem a maior soprano, no auge de sua carreira lírica, conseguiria o mesmo tom. Como aquilo era possível? O filho de três anos ainda não balbuciara uma palavra sequer. Tampouco tinha-se ouvido um ruído saído daquela boquinha. Até já se conformara com o mutismo do menino. Está certo que os médicos já a haviam alertado para a possibilidade do acontecido: “Este menino é preguiçoso”. “Pela idade e pelos testes audiométricos, é certo que sabe falar”. Mas seu filhinho, falando, deixou-a assustada. E ainda estava sozinha naquele quarto ermo e mal-iluminado. O ar começou a pesar. Sentiu-se sufocada. Desmaiou.
O marido acorreu para o quarto assim que pôde. O grito e o barulho seco do impacto do corpo no chão o assustaram. Chegou sem fôlego.
─ Marisa, Marisa, acorda, meu amor. O que foi? ─ acudiu-a com uns tapinhas nas faces.
A filha mais velha chegou em seguida com um copo d’água.
─ Toma, pai, joga um pouco no rosto dela.
A criança não se abalara com o alarido. Prestava uma atenção... Curiosa, olhava para o rebuliço e brincava com seus apetrechos de berço. O pai não entendia a cena. A mulher despertava...
─ Meu amor, o que foi? Você está bem?
─ Ahm!... Ahmm... O Ju...ni...nho...
─ Calma, amor, ele está bem...
─ Mas é claro que estou. Só estou cansado de ficar nesse berço. Já disse: quero sair daqui!!!
─ Viu, amor, ele está até falan...do...
O pai, incontinente, largou a mulher que despencou no chão, novamente desfalecida. Então, ele se levantou, olhou para aquela criaturinha de Deus, abriu os braços e exclamou:
─ Você está falando, meu filho!!!
─ Claro, eu não sou mudo. O médico mesmo falou isso pra todo mundo. Vocês é que não acreditaram.
A filha mais velha nem ligou para a mãe que ficou estatelada no chão do quarto. Correu, pegou o garoto no colo e começou a beijá-lo.
─ E você tem uma voz lindinha, meu irmãozinho.
─ Obrigado, mana, você é um amor.
O pai saiu com os dois fazendo planos para o futuro locutor da família Arantes. A mãe despertara mais uma vez do chilique e, como não viu ninguém no quarto, começou a gritar novamente estatelando-se no chão como antes. O menino tranqüilizou a todos.
─ Não liga não, pessoal. Ela é sempre assim mesmo: dramática... Mas, como eu ia falando, blá... blá... blá..., blá... blá... blá... blá... E não parou nunca mais.
Crianças são sempre surpreendentes, né?! hehehe
ResponderExcluirSuas crônicas do cotidiano falam muito a nós (o Adriano, nosso filho, que o "diga"), principalmente esta, agora que somos pais e estamos passando exatamente pela situação habilmente narrada por você. E o que vem depois da fala súbita? Esperamos mais histórias.
ResponderExcluirUm abraço.