Um amigo me enviou um e-mail comentando uma crônica de Vinícius de Moraes. Dizia ele que o poetinha vivia lá suas turras com a prosa, dividindo-a em duas categorias e classificando uma delas como uma arte ingrata.
Vinícius se referia às dificuldades de seu tempo (máquina de escrever, periódicos matutinos ou da véspera) e da prosa fiada, aquela com que o cronista se digladiava e se engalfinhava no dia a dia para compor um texto para publicação no dia seguinte, usando apenas a imaginação ou a associação de ideias com outros temas.
Minimizava essas dificuldades em relação à prosa de um ficcionista (criador de histórias), afirmando que nestas o prosador é levado meio a tapas pelas personagens e situações que ele próprio criou, não tendo muito controle sobre as narrativas.
Nos nossos tempos, a dificuldade estaria na verve com que o prosador do cotidiano, sentado à frente do seu computador, com um cigarro na boca (opa!, isso não pode mais), olhando através da janela, busca fundo em sua imaginação uma visão diferente sobre um fato qualquer, de preferência colhido da internet (atualizada a todo instante), em que, com suas artimanhas peculiares, injeta sangue novo, dá nova vida, comentando-o e postando-o em blogs ou sites.
Isso me fez lembrar Drummond, que dizia que tinha apenas um por cento de inspiração e noventa e nove por cento de transpiração na produção de seus textos, e de Mário Quintana, que comentava que o texto tinha lá suas próprias intenções de dizer alguma coisa e que, muitas vezes, a coisa era dita à revelia do seu produtor, sem seu consentimento, por conta e risco da própria coisa que não tinha nenhuma certeza de que teria dito tal ou qualquer coisa.
É... Dura a vida do que se serve desse meio para a comunicação. Se optar pela prosa fiada, padecerá eternamente o castigo prometeico. Se desejar o caminho mais "fácil" da prosa ficcionista, ficará como uma nau à deriva, refém das situações e das personagens que criou.
A julgar pela escassez de ficcionistas na mídia, o que se intui é que os blogueiros estão atirando para todos os lados com o objetivo de conseguir assuntos originais para os seus posts. Servem-se da profusão dos meios e da instantaneidade da informação, aproveitando-se até da arte de cronicar em cima do que o amigo lhe cronicou. Ares da modernidade, sinais dos novos tempos.
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