— Desce logo que eu vou manobrar ali na frente. Te espero no carro mesmo.
Despediu-se da mulher que entrou apressada no supermercado. Olhou para frente e viu uma mãozinha lá no fundo, fazendo-lhe sinais. A vaga estava segura.
— Mais pra cá, tio... vai... tá bom!
Estacionou. Antes que desligasse o carro, a menininha chegou próximo da porta.
— Posso olhar?
Ele olhou surpreso para o tamanho da garota. Descalça, roupa dilacerada, cabelos presos dentro do boné. Parecia querer ocultar sua identidade, mas não escondia o desespero. Sua alma saltava pelos olhos que ainda faiscavam. Estava sempre em estado de alerta, olhando o tempo todo para os lados.
Não tinha como não se lembrar da crônica de Fernando Sabino, Na escuridão miserável. Será que viajara no tempo, voltara aos anos 70? Não! Claro que não! Estava bem ali no século 21. A situação do menor no Brasil não melhorara desde aquele tempo. Pelo contrário...
Ela insistiu:
— Posso olhar o carro, moço?
— Ahm... Pode sim, claro! ― e permaneceu sentado no carro.
— O senhor não vai descer?
— Não...
— E como é que eu vou olhar?!
— Com os olhos, ué...
Ela encostou-se na porta, ficou na ponta do pé e se inclinou para olhar o interior do carro.
— Nossa! Que luz é aquela piscando? ― indicou o alerta do dispositivo de segurança do veículo.
— É do alarme. Se alguém quiser invadir o carro, desce uma lâmina do teto e zap, corta a parte que está dentro do carro.
A menina se afastou num impulso, levando as mãos ao pescoço.
— Calma! ― eu ri ― Ele está desligado...
— É, o senhor não precisa de ninguém pra olhar ele...
— É, acho que não, mas me diga uma coisa... ― nisso ela fez menção de sair correndo. ― Ei, para, garota... ― abriu a porta do carro pegando-a pelo braço. ― Aonde a menininha pensa que vai?
— Aquele cara ali não deixa a gente trabalhar ― apontou um molecão de uns dezoito anos que fazia gestos ameaçadores.
O moleque, quando viu que o motorista olhava, disfarçou e mudou a direção dos seus passos.
— Como você se chama?
— Aninha.
Eram quase onze horas da manhã. O sol ardia em seus ombros.
― Você tomou café hoje, Aninha?
― Ainda não senhor.
― Quantos anos você tem, meu anjo?
― Seis...
― Sua mãe sabe que você está aqui?
― Sabe sim. Ela acorda a gente às sete pra vim pro supermercado...
― Você tem irmãos?
― Mais três...
― Todos olham carros?
― É, eles vão pra outros lugares...
― Eles são maiores que você?
― Um pouco só...
Percebeu que ela relaxara e sentia-se segura ao seu lado. Puxou-a para a sombra de uma árvore.
— E a que hora você vai embora?
— Se eu conseguir um bom dinheiro, eu vou à tarde.
— Sei... E seu pai?
— Tá preso em Taubaté.
O molecão estava impaciente com nossa intimidade. Andava pra lá e pra cá. Parecia enjaulado. O motorista resolveu intervir e o chamou para uma conversa. Aninha ficou agitada. Passou os braços pelos ombros da garota que se aquietou. O rapaz chegou. Balançava o corpo como se driblasse a própria sorte. Roupas enormes, cueca à vista.
— Escuta aqui, meu, que negócio é esse de ameaçar a menina?!
— Ameacei não... Ela é que é forgada. Fica roubando freguês da gente.
— Cara, tem carro pra todo mundo olhar. Você pega uns e deixa outros pros outros, mermão...
— É, mas ela é menina; se acontece alguma coisa...
— Olha aqui, moleque, eu tenho certeza que não vai acontecer nada com ela! E se acontecer, eu venho na sua garganta ― e deu uma piscadela para a garota. ― Olha lá, tá chegando outro carro, corre e esquece a menina.
O moleque saiu sem olhar para os dois. Aninha lhe deu um abraço e agradeceu.
— Ele sempre corre atrás da gente pra bater...
— Olha aqui, minha menina, se ele tornar noutra dessa, fala que você vai me chamar, tá bom?
Os dois selaram uma amizade com um abraço forte.
Sua mulher apontou com as sacolas. Ia na sua direção para ajudá-la e a menina fez menção de segui-lo.
— Ei, você não vai olhar o carro pra mim?!?!
Ela sorriu e ficou próxima do veículo. Guardaram tudo. A esposa se sentou, bateu a porta. Ele chegou até sua porta e sacou a carteira. Tirou duas notas de dez e entregou-as para a menina.
Os olhos dela brilharam.
— É pra você fazer um lanche e tirar o dia de folga.
Sentou-se, ajeitou o cinto de segurança, olhou para a mulher com os olhos marejados.
— Tudo bem, meu amor? ― perguntou-lhe a mulher passando a mão no seu rosto.
— Tudo bem... Tudo bem...
Deu ré no carro e passou pela sua amiga que ficara estática ali, olhando para o dinheiro. Quando seguiu em frente, viu a imagem da menina no retrovisor diminuindo até sumir.
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