Quem já passou por aqui

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O café

Nada dera certo naquele dia. Dormira pouco. Tivera alguns pesadelos. Acordara com o peso do mundo nas costas. Saíra atrasado de casa e no serviço brigara com o chefe.
O dia parecia que não tinha fim. Arrastava-se como uma serpente no deserto árido da vida. O consolo seria chegar a casa e tomar um café para se refazer. Gostava de prepará-lo como se cumprisse um ritual: a chaleira, o bule, o coador, o borbulhar da água, o pó, o aroma...
Caminhou cabisbaixo como quem procura o próprio ser nas entranhas da terra. Istmo fim do começo. Clarividência diáfana da alma.
Chegou diante do portão. O cachorro não estava ali para lhe sorrir latindo ou cantar em uivos a canção da fidelidade. Mas via perfeitamente nítida a imagem daquele que um dia o acompanhou. Entrou, e a casa lhe parecia vazia. Tinha cheiro de guardada. Guardada para quê? Guardada para quem, meu Deus?
O filho estava inerte no computador. Só seus dedos trabalhavam freneticamente. Pela tela pôde ver sua face ingênua. Encerrava ainda as espinhas impudicas. Ensaiou um “oi”, “olá”, “boa tarde”, talvez, mas calou-se diante da infâmia de sua invisibilidade.
Foi para a cozinha. Agora estava em seu reino. Regozijava-se de seu poder. Olhou em volta. Tinha o pensamento fixo no café. Buscou pela chaleira, e não a encontrou. Mastigou uns grunhidos. Abriu o armário e, quando a puxou, outras vasilhas despencaram sobre sua cabeça. Não fez nenhuma menção em se proteger. Ficou estático sendo lavado pelo alumínio, que escorria pelo seu corpo. Ainda ouviu o tilintar dos utensílios na cerâmica antes de sentir o sangue percorrer todo o seu corpo e explodir em suas faces rubras. Um rugido gutural ecoou por toda a casa. Não aguentou e começou a chutar tudo. Panelas, chaleira, bule, coador, tudo voava como se a vida estivesse ali.
O barulho era infernal, e o infeliz foi arqueando, se abaixando, chafurdando. Nem percebeu que o filho acorria à porta e o observava atônito.
─ Pai. Pai! PAI!!!
Assustou-se quando viu o menino bem maior do que era.
─ Tá acontecendo alguma coisa?
Ele não respondeu nada, apenas colocou as mãos no rosto.
O filho chegou até o pai, estendeu-lhe as mãos e o levantou.
─ Vem cá, pai. Você está nervoso...
Agora, o garoto tomava a dimensão de um gigante que o abraçava e o envolvia. Sentia-se protegido. Queria ficar assim por toda uma eternidade.
─ Calma, papai, vai dar tudo certo, viu?
Suas mãos infantes acariciaram a cabeça daquele que um dia o pegou no colo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário