o-o-o-o
A chuva não dava trégua. A conversa estava animada. O menino parecia adorar estar ali com o avô e esquecera de tudo. O bichinho virtual apitou novamente.
― Ele tá com fome, agora.
― O que você vai dar pra ele?
― Comidinha, ué...
― Dá trabalho cuidar dele?
― Não. Só quando ele não pára de apitar.
― E o que você faz?
― Aí eu desligo ele.
Fácil! Aí eu desligo ele...
Quantas vezes teve a mesma vontade de fazer isso. Desligar o que o atormentava. Mas sua infância fora real. Tinha vivenciado tudo e, não por acaso, lembrava-se dessas histórias.
o-o-o-o
― Filho, dá a chupeta pro seu irmão que eu to ocupada aqui!
Que droga de vida! As coisas não andavam nada bem pra mim depois que aquele chorão nascera. Era botar chupeta na boca, balançar o berço pra ninar o menino, empurrar carrinho pra ele passear, dar papinha na boquinha...
― Tudo eu! Tudo eu! Tudo eu...
― Tá reclamando de que, menino?!?!
É, nem eu sabia do que reclamava. Afinal a culpa era minha de as coisas estarem naquele pé. Que é que eu tinha de insistir pra ganhar um irmão?!?!
― Mãe, você arruma um irmãozinho pra mim? Quase todo mundo tem irmão! Só eu é que tenho essas irmãs chatas que nem brincam comigo...
― Calma, menino, que sangria desatada é essa. Fala devagar pra eu entender....
Eu entrara correndo e não notara que minha mãe cochilava no arremate da costura. Não era a primeira vez que eu pedia um irmão. Sentia falta de alguém pra brincar. Alguém como eu que gostasse dos mesmos brinquedos e dos mesmos jogos. Não podia ver avião passando que saía correndo e gritando pra jogar um irmão pra mim. Um dia eu vi um colega ser repreendido por sua mãe porque estava agachado, olhando para trás, de cabeça pra baixo, por entre as pernas. “Pára de chamar outra criança, menino!” ― dissera ela. Ele ficou sem graça... A partir daí, sempre que podia, estava eu lá chamando uma criança também. Chegou a dar calo na cabeça de tanto que eu a ralava no chão quando agachava pra pedir um irmão. Só parei quando mamãe veio com a notícia de uma gravidez. Gravidez?!?! Finalmente, eu ganharia um irmãozinho! Tá certo que ela não podia garantir nada; afinal, e se fosse mais uma menina? Eu, de minha parte, tinha certeza de que seria um menino. Até já sonhara com ele...
E agora eu estava ali, naquela situação! Já não brincava mais direito com meus amigos, pois tinha de ficar olhando-o. E o curioso é que o carinha era pequenininho demais. Onde mamãe pensa que ele vai, cercado por essas grades de madeira, rolos de espuma e travesseiro. O menino parece mais um pacote com uma touca! E como chora o pestinha. Acho que ele veio com defeito. Às vezes vaza e fede. E o tamanho?! Olha só! Quem consegue brincar com isso...
À medida que a barriga crescia, aumentava ainda mais minha curiosidade. Quer dizer, então, que aquela história de cegonha e coisa e tal era tudo balela pra enganar criancinha?
― Não acredito! ― bradou meu maior amigo quando eu lhe revelei aquele segredo de família.
― Não grita, seu louco! Só os mais velhos podem saber disso...
Algumas vezes mamãe me deixava senti-lo com a mão sobre sua barriga que crescia e crescia. Parecia até que ia explodir. E ele estava lá, protegido...
― Nossa, ele me chutou, mãe. E olha que onda ele tá fazendo agora!
― Acho que ele quer brincar com você, meu filho.
Mamãe ria e afagava minha cabeça. Eu pensava que, quando ele saísse, eu deveria protegê-lo dos meninos mais velhos. E, sussurrando bem próximo àquele barrigão, falava-lhe pra me chamar ao menor sinal de perigo.
― Que é que você já está conversando com ele, meu menino?
― Papo de homem, mãe. Papo de homem...
Como, então, eu poderia sentir tudo aquilo, agora que ele nascera? Olhei com maior atenção para seu rostinho. Ele já estava calmo. Dormia profundamente e parecia que respirava sem muito ritmo. Em alguns momentos, eu chegava a palma da mão em direção a suas narinas para sentir o ar expulso pelos seus pulmões. Nem percebi que mamãe estava ali há algum tempo nos observando. Quando notei, ela já falava baixinho ao meu ouvido:
― É, filho, você vai ser um paizão quando crescer...
― A senhora acha?
― Acho, não. Tenho certeza!
Mal sabia ela dos meus pensamentos. Eu olhei mais uma vez para o berço, passei minha mão enorme no seu rostinho e ele sorriu pra mim.
― Tá vendo? Até ele concorda comigo ― falou mamãe, puxando-me pra almoçar.
Confesso que não sentia fome. Não me lembrava nem dos meus amigos. Por mim ficaria ali, debruçado na guarda do berço, olhando para aquela criaturinha de Deus.
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