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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Educar para a vida

o-o-o-o

A barriguinha do garoto roncou alto.
― Nossa! Você está com fome...
Ele apertou-a e curvou-se um pouquinho, encostando o joelho no peito com facilidade.
― Vamos ver o que tem pra comer na geladeira?
― Vamos! O último a chegar é a mulher do sapo ― Renan saltou  em direção à cozinha.
O avô, é claro, fez que foi, mas ficou para trás. Quando chegou, o menino já sorria com a caixa de cereais na mão.
― Vovô é a mulher do sapo... o vovô é a mulher do sapo...
― Peraí, seu menino ― e fez cara de zangado.
O menino se escangalhou de rir. Depois que comeram, voltaram para a sala.
Renan foi falar algo e arrotou na cara do avô. Colocou a mão na boca e pediu desculpas.
― Não tem problema, meu filho. Sabe que uma vez eu quase fui suspenso na escola por causa disso?

o-o-o-o


― Nossa Senhora!
― Cruz-credo, meu! Cê parece que tá podre...
― Pelo amor! Ninguém merece!!!
Essas expressões vinham do fundo da sala. Nossa turminha era fogo, e o professor Roberto, paciente. Mas o que se viu em seguida foi algo parecido a uma grande onda. Um tsunâmi devastou o ambiente, provocando um revolver de carteiras e fuga de todos os alunos.
Acho mesmo que se a cena fosse filmada, passada em câmera lenta, veríamos a expressão de desespero nos rostos daquelas crianças.
Eu estava no centro de tudo e não aguentei. Comecei a rir e fiquei sozinho, sentado em minha carteira. Confesso que, com essa atitude, assumia a paternidade da criança. Acusava-me deliberadamente sorvendo o ar poluído naquela tarde de verão.
Alguns coleguinhas me confidenciaram depois que, na clareira que se abrira ao meu redor, pairava uma névoa que me dava uma aura esverdeada.
Insuperável fora a vazão daquele estado de flatulência, inimaginável para mim seria minha punição. Ciente do alto grau infracionário de minha atitude, levantei-me e fiz menção de já ir para a Diretoria.
O professor Roberto mandou-nos sentar. Normalmente, sua voz era de benevolência, mas naquele instante ela se transformou. Cortou o ambiente poluído e pôs ordem na casa.
― Todos SENTADOS! ― e espalmou a mão na mesa como nunca fizera.
Alguns ficaram indignados em ter de se sentar naquele ambiente sem usar máscara antigases. O próprio professor se esforçava para não fazer caretas, mas não resistia em colocar as mãos no rosto para cobrir o nariz e a boca.
De longe eu tinha a sensação de que ele tinha náuseas.
Alguns me olhavam com ar de reprovação. Outros me cumprimentavam esfuziantemente pela obra de arte produzida. Pela primeira vez eu experimentava a sensação do meu minuto de fama.
― Muito bem, turma, silêncio agora! SILÊNCIO!!!
A sala emudeceu, e todos viraram estátuas.
― Olha, o que aconteceu hoje aqui não foi nada engraçado...
Os meninos engoliram os risinhos, as meninas resmungaram concordando.
― Mas também não foi nada aterrorizante.
Nossa! Ele não se impressionara... Pensei em chamá-lo para ser o presidente do nosso Clube do Peido, que congregava a nata da flatulência juvenil. Mas a aula que se seguiu, então, transcendeu qualquer possibilidade de abordagem nova da Cartilha Caminho Suave.
― Gente, eructar, arrotar ― explicou ― soltar gases, peidar ― completou ― é apenas e tão somente uma necessidade fisiológica...
Ele vai querer me desmoralizar agora, diminuindo meu feito?!
― É como beber água, comer, tomar banho. Todos precisamos fazer isso...
E essa agora!
― Só que essas coisas devem ser feitas em seus devidos lugares, encerradas em seus próprios ambientes.
― Encerradas, seu?!?! ― interveio um incauto membro de nosso clube.
― É, encerrada quer dizer restrita a um local adequado.
Eu, que fizera menção em dar-lhe uma cotovelada, respirei mais aliviado com o significado da palavra.
― Imaginem se as pessoas fizessem o que quisessem em qualquer lugar...
Pronto, aquela colocação e o olhar insinuante do professor Roberto deram o aval para a participação de todos. Um engraçadinho deu a ideia para que as meninas se banhassem ao ar livre, andassem com menos roupas ou nenhuma de preferência.
― É, seu idiota! E sua irmã vai estar juntinha de mim ― retrucou a coleguinha indignada.
― Eu não! Não sou assanhada...
O alarido tomou conta do ambiente, e a conivência do professor proporcionou uma série de exemplos nos quais colocávamos nossos familiares. Essa troca de informações nos fez criar várias situações constrangedoras e inadmissíveis de acontecerem.
O professor parecia pairar sobre tudo e sobre todos. Sua feição era de êxtase com o desenrolar de sua aula. Franziu a testa e aproximou o dedo indicador do rosto. Nesses momentos, era como se uma luz clareasse ainda mais suas ideias. O tempo parava para sua estocada final, e nós emudecíamos embevecidos por seus momentos epifânicos. Com frequência se dizia um privilegiado por ser professor de português. A leitura favorece-nos uma visão diferente do mundo. Como se levitasse, abriu os braços suavemente, e todos assentiram.
― Perceberam? Notaram que as regras não foram criadas para engessar a sociedade, mas para organizá-la?
Parecia incrível como ele conseguia com um pum (tá certo que fora um superpum) fazer-nos filosofar com aquela idade que tínhamos.
O sinal tocou. Todos pegamos nossos materiais para sair. O professor Roberto determinou que nós quatro, membros eméritos e sócios fundadores do Clube do Peido, o acompanhássemos.
Passamos pela Diretoria. Roberto pediu à diretora que avisasse nossas famílias que teríamos uma aula prática e que chegaríamos mais tarde em casa. Colocou-nos no carro e rumou para um hospital.
Não entendíamos nada.
― Calma! Vocês já vão ver...
Fomos direto para a pediatria. Ele abriu a porta do quarto número cinco, e sua esposa veio ao seu encontro.
― Como está ele?
― Na mesma. O médico falou em operar novamente se a febre não ceder.
Os olhos daquela mulher estavam vermelhos, com olheiras profundas. Ela o abraçou e perguntou sobre nós.
― Eles vieram ajudar...
Nós?!?! Como?
Então, o professor Beto mandou-nos aproximar do leito. Seu filho estava lá, todo sorumbático, com soro na veia e faixas no enorme abdome. Parecia dormir pesadamente. Penava para respirar e de tempos em tempos contraía o semblante, acusando sua dor.
― O que ele tem, professor? ― sussurrei a pergunta.
― Apêndice supurado. Infecção estomacal.
Aquelas palavras difíceis não escondiam a gravidade do caso. Ele podia morrer.
― Só que agora, o que mais o incomoda é que ele não consegue eliminar os gases.
― O quê?! Ele não consegue peidar? ― bradei.
― É! Por isso, eu trouxe vocês aqui...
Entendi nossa missão. Aproximei-me de seu rosto e o acordei. O menino parecia ter a nossa idade. Abriu os olhos com esforço e deu um sorriso amarelo. Faltava-lhe vida. Olhou para os pais e depois para mim.
Pedi aos dois que saíssem e nos deixassem. Assim que saíram, meu amigo que tinha problemas com contenção gasosa liberou o Estrondoso. Cuidei para providenciar a ventilação do ambiente, pois do contrário todos ficaríamos ali internados por intoxicação. Ele sorriu e pediu para levantarmos o leito com a manivela da cama. Outro amigo soltou o Fio de Esperança com uma maestria que provocou gargalhada. Em pouco tempo, vieram o Sibilante, o Ovo Podre, o Esgoto e, pra finalizar, o Bomba Atômica.
Ríamos muito naquele quarto. De repente, olhamos para nosso amigo e o silêncio tomou conta do ambiente. Ele franziu a testa, como o professor, gemeu, juntou suas parcas forças e contraiu seus músculos para soltar o Moribundo.
Esperamos para ver sua reação. Ele sorriu, mordendo os lábios e segurando as faixas. Não parou mais de peidar. Sua barriga foi-se desinflando, esvaindo-se com a liberação dos ventos. Parecia mágica e, em pouco tempo, sua pele começava a mudar de tonalidade.
Abri a porta e convidei-os para entrar. Eles hesitaram, abanaram o ar com as mãos, respiraram fundo e foram ao encontro do filho que sorria. Abraçaram-no e cobriram-no de carinho. Chamei meus amigos e ainda pude dar uma última olhada para aquela família feliz. Saímos de fininha mais leves do que quando entráramos.


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