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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Assombração

o-o-o-o

Um clarão seguido de um forte estrondo abalou tudo no apartamento e assustou o menino. Ele deu um salto e quase caiu no colo do avô.
― Calma, meu menino, foi só um trovão.
― Eu pensei que tudo fosse cair...
― Que é isso, garoto! O prédio é firme.
Nisso a energia foi cortada, e os relâmpagos passaram a projetar formas bizarras nas paredes. Renan encolhia ainda mais, buscando proteção. A chuva apertou. O avô puxou para si aquele toquinho de gente.

o-o-o-o

Eu tinha acabado de entrar correndo. Estava branco como cera e soltava os bofes pela boca. Só Deus e eu sabíamos o sacrifício que fora fazer aquele trajeto de mais ou menos cem metros da casa de minha tia até a minha casa. A noite naquele dia estava ainda mais escura, um verdadeiro breu.
Não sei por que ficávamos ao redor da fogueira, ouvindo histórias de assombração, se depois tínhamos de ir embora no escuro com medo. Meus tios tinham o dom de contadores de história e enredavam a todos em suas teias narrativas. Naquele tempo não havia televisão para todo mundo. Ficávamos hipnotizados, fascinados principalmente pelo sobrenatural.
Ofegante, sentia ainda a pulsação em minha garganta. A segurança era a porta fechada atrás de mim.
― Nossa, menino, você está branco ― falou minha mãe, assustando-me. ― Parece que viu assombração...
― Ah! mãe. Não é nada não. Dorme com Deus que eu já tô indo.
Ela voltou para seu quarto meio zonza. Pela janelinha que tinha na porta ― o olho mágico da época ― pude olhar a frente da casa com alívio. O portão ficara aberto. É, eu nem parara para fechá-lo. Entrara feito uma bala. Mas, quem haveria de se importar com um portãozinho qualquer de uma casa, aberto ou fechado, numa noite escura de inverno?!?! Afinal, ladrão que entra na casa de pobre só leva susto...
Naquele tempo não havia iluminação pública nos bairros, as casas eram raras. Muitos campos, matos e árvores tomavam conta da paisagem. Os bambuais adquiriam formas bizarras com a luz da lua. A névoa, que cobria a ramagem, dava um clima de mistério e terror que envolvia a todos. Tudo ficava sinistro depois das seis...
Mas eu estava a salvo naquele momento, e minha respiração voltara ao normal. Fechei a janelinha, passei o trinco e coloquei a trava de segurança na porta. Fui lavar os pés para dormir. Quando estava na cozinha colocando água para esquentar, escutei alguém bater na porta da sala. Parei para prestar atenção... A batida se repetiu, agora mais forte. Estranho... Quem seria àquela hora? Coloquei a chaleira no fogo e fui atender ao visitante que já parecia impaciente.
Abri a janelinha e fiquei surpreso. Não havia ninguém no meu ângulo de visão. O portão balançava lentamente, pra lá e pra cá. Teria alguém entrado ali, batido na porta e ido embora? Bem, minha água estava no fogo. Voltei para a cozinha para temperar meu escalda-pés.
Novamente, no meio do caminho, escuto a batida na porta. Agora estava mais firme e intermitente. Será que a pessoa me viu abrindo a janelinha e voltara? Deixei bater novamente para voltar e atender. Todos dormiam dentro de casa. Só eu estava ali, envolvido naquela situação. A batida ficou mais forte e pude chegar logo em seguida ao último toque. Abri a janelinha de supetão e olhei firme, mas não vi nada de novo. Um frio que nasceu na espinha tomou conta de todo meu corpo, e minhas pernas bambearam. Confesso que algumas histórias vieram a minha mente, abalando minhas convicções. Fechei rapidamente a janelinha e preparei para sair correndo, voando se possível. Mas, uma ideia assombrou ainda mais minha mente. E se alguém estivesse brincando comigo, tentando me assustar? Se eu corresse ou pedisse ajuda para minha mãe, certamente serviria de chacota para todos no dia seguinte. Resolvi tirar tudo a limpo. Então, não desgrudei da porta e esperei a batida para surpreender o fanfarrão e colher dividendos com aquela brincadeira.
A chaleira já assoviava com a fervura da água. Eu estava de costas para a porta, bem encostado nela. Minha respiração começava a ficar sôfrega, e meu coração batia que nem um tambor. Foi como se alguém me cutucasse por trás. Virei-me lentamente, coloquei a mão no trinco da janelinha e prendi a respiração, esperando nova estocada. Não se ouvia nada naquele momento. Quando a batida recomeçou, abri a janelinha rapidamente e o que vi me deixou paralisado. Não havia nada à minha frente e o pior é que o barulho das batidas continuava, mais intenso ainda. Perdia apenas para as batidas do meu coração. Só não corri porque meus pés ficaram chumbados no chão. Meus cabelos se arrepiaram. Tinha vontade de gritar, mas ficara mudo.
Firmei minha visão enquanto tremia. Nada passava pela rua naquele instante. Acho que a água já secara na chaleira, e eu estava ali petrificado. Quase fiz xixi nas calças, mas, num último ato de bravura e dignidade que me restavam, resolvi enfiar a cabeça naquela bendita janelinha para enxergar melhor as coisas.
Qual não foi minha surpresa com a cena do meu cachorrinho sarnento, encostado na porta, bem embaixo da janelinha, na soleira, se coçando. Para meu alívio, pude perceber que ele, como se tocasse uma viola, batia na porta insistentemente, simulando um visitante.
― Passa, Tiolinho ― ralhei com ele. ― Vai assustar sua mãe, vira-lata...
Ameacei com as mãos, e ele saiu ganindo com meu gesto brusco. Nisso, senti uma mão em meu ombro e dei um pulo de susto.
― Calma, meu filho! Você tá brincando com o cachorro a essa hora?!
― Claro que não, mãe, já vou; já vou...
Fui direto para o meu quarto. Minha mãe foi lá fora fechar o portão. Quando voltou, perguntou-me da chaleira no fogo.
― Não é pra nada, não, mãe. Dorme com Deus...
Dizem que não presta dormir com os pés sujos, pois as almas penadas vêm puxá-los depois que dormimos. Mas eu não quis nem saber. Tratei de fechar os olhos e começar a contar carneirinhos.



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