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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A louça

o-o-o-o

A luz voltou e acabou definitivamente com o medo do garoto que ria com a história do avô. A chuva abrandara um pouco. O avô dava sinais de cansaço. A cabeça começava a pesar. O estômago ardia um pouco. Alguma coisa que comera não lhe fizera bem.
― Vamos pra cozinha um pouquinho? Preciso achar um remedinho...
― O senhor tá doente, vovô?
― Não, meu filho, só uma dorzinha aqui ― colocando a mão no estômago.
Olhou no armário e encontrou o antiácido. Precisava deixar aquela cozinha limpa...

o-o-o-o

Filho, vai lá ver se sua irmã já acabou com a louça, pediu minha mãe, que lidava com as costuras.
― Eu?!
― Claro, tem mais alguém aqui?
― Mas, mãe...
Bastou um olhar para eu desistir das ponderações, largar o brinquedo e descer para o fundo do quintal. Eram quase quatro da tarde, e minha irmã não subira ainda com a louça do almoço lavada.
Não existia água encanada naquela época. Ela era tirada diariamente de uma cacimba e acondicionada em bombonas para uso doméstico. As louças eram lavadas numa bacia que ficava numa bancada de madeira no fundo do quintal. A água suja escorria para a rua ou para o quintal do vizinho em valetas abertas no solo, rugas na terra.
Minha irmã era apenas três anos mais velha que eu, mas parecia encerrar em si o conhecimento de outras vidas. Levava horas para fazer o que se fazia em minutos. Eu a adorava e muitas vezes ajudava-a para que se safasse dos castigos. Ela estava de costas e não percebeu minha aproximação.
― A mãe tá cobrando a louça limpa...
Ela nem se moveu. Continuou com as mãos dentro da bacia. Não parecia esfregar nada, apenas mexia os dedos. Dei a volta e olhei para seus olhos que fitavam as bolhas de espuma: algumas pequenas, outras grandes.
― Percebeu que nenhuma é igual à outra? ― falou sem olhar para mim.
― E a louça, mana?
― Olha o reflexo nelas. O que você vê nas bolhas?
Parei para olhar. Sempre aprendia algo novo com ela. Em seu mundo, as coisas aconteciam de forma diferente. O tempo não tinha pressa. Parava ao seu lado em forma de sabedoria.
― Não vejo nada, não!
― Claro que não vê nada. Você está olhando com os olhos, maninho. Tem de usar o coração.
Mexeu mais uma vez na água, e as bolhas se alteraram. Novas imagens se formaram e seus olhos se encantaram com o espetáculo multicolorido. Ela olhou para mim, finalmente. Como se desistisse de falar das bolhas de sabão, apontou para o chão.
― Tá vendo aquela formiga? Faz tempo que ela está ali, tentando levar aquela folha enorme pro formigueiro.
― E você acha que ela vai conseguir? ― perguntei-lhe.
― Com certeza, vai. Ela sempre consegue. Mesmo que tenha de cortar a folha em pedaços menores.
― Mas aí ela vai ter que dar várias viagens...
― E daí?! Ela não tem pressa...
Eu começava a me inteirar do ambiente. À sombra daquela mangueira, sentia a natureza pujante. Um sentimento de compaixão tomava conta do meu ser. Peguei em suas mãos geladas, virei-as e pude sentir a textura. Pareciam mãos de velha. Pareciam mãos de outra pessoa. Meu rosto refletiu numa bolha enorme. Ela percebeu meu estranhamento.
― Seu rosto já não é mais o mesmo, meu irmão. Você é outro.
― E você? ― perguntei-lhe.
― Eu nunca sou a mesma. Renasço a cada instante, diferente do que nasci.
― E você não tem medo de morrer a cada renascimento? ― indaguei, já conseguindo acompanhar seu raciocínio.
― Não, meu irmãozinho! Eu tenho medo de olhar para os meus dedos depois da louça seca e perceber que eles não se desenrugaram. Eu tenho medo é que eles nunca mais voltem ao normal.
― E o seu rosto?!?!
― Ele nunca é o mesmo. Em cada bolha ou espelho, em cada bacia ou panela, em cada colher, vejo meu rosto em formas diferentes.
― Isso não te assusta?
― Não, claro que não... A essência não está no rosto, mas na digital...
Não entendia muito onde podíamos chegar. Então, ela me pegou pelas mãos e me carregou até um banquinho de madeira que ficava em volta da mangueira. Sentou-se de frente e começou a me explicar com a paciência de uma professora.
― Olha aqui, preste atenção! Não importa qual seja sua cara, quantos rostos você tenha ou quantas vidas você viva. Não importa quantas máscaras você use. Você vai ter que conquistar a faculdade de se adaptar aos momentos pelos quais esteja passando...
As coisas começavam a fazer sentido. Meu rosto iria mudar ao longo de minha vida, disso não poderia fugir. Minha vida iria mudar com o passar dos anos. Mas, minha digital...
― Pois é, você vai ter que se desenrugar sempre que ficar enrugado. Só assim conseguirá suportar as dificuldades da vida e sobreviver, meu amor. Se não der para carregar a folha toda, corte-a em pedaços e dê quantas viagens forem necessárias para carregá-la.
Pegou um copo, afundou-o na bacia e colocou-o cheio de água próximo dos meus olhos. Fiquei vesgo, mas minha visão ficou mais nítida.
― Veja, agora a água está no copo, tem forma diferente, mas não deixou de ser água.
Pude perceber um sorriso de vitória tomando conta de seu rosto. Entendia agora o renascer de que falara antes, sem a perda da identidade. Eu a abracei com a ternura do aprendizado. Mamãe gritou lá de dentro. Juntos, terminamos de lavar a louça rapidinho. Na subida, sentia-me como uma formiga que cumpria sua sina.



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