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sábado, 12 de fevereiro de 2011

O pôr do sol


o-o-o-o


Agora, sentia mais forte os efeitos do ar condicionado. Olhou para a janela. Vapores se condensavam em gotículas e escorriam pela vidraça. O menino olhou para o avô.
― Toma, vô ― entregou um lenço de papel que estava numa caixinha sobre a mesa de centro.
O avô sorriu a gentileza. Sentia o neto como nunca sentira um filho seu.
― Obrigado...
Sua voz estava embargada. Suas mãos trêmulas.
― Você quer um copo d’água com açúcar, vovô? Mamãe sempre dava água com açúcar pra vovó quando ela estava nervosa...
― Não precisa, meu anjo. Dá um abraço bem forte... Upa!
Aquela troca de energia fê-lo tomar fôlego e ganhar forças para prosseguir.
Num piscar de olhos, estava lá. Corria como ninguém. Seus olhos miravam apenas o céu. Buscavam no malabarismo do brinquedo a direção para sua vida. Planar, flanar, subir, descer, arremessar, amerissar...
― Sabe, Renan, a primeira vez em que vi a vovó nem imaginei que fôssemos ficar juntos.
― E como ela era, vô?
― Com certeza, a mais deslumbrante de todas as meninas.
― Menina?!
― É tínhamos uns dezesseis ou dezessete anos.
― Nossa, vô, faz tempo, hein!
― No começo ela nem me notou, mas eu já estava de olho nela.
― Credo, vô, o senhor brincava com meninas?
― Mais ou menos, meu garoto. Nem eu mesmo sabia direito o que queria com ela. Algo estranho começava a acontecer comigo. Só sei que foi o melhor pôr do sol que vi em toda a minha vida.

o-o-o-o



Eu fedia o mau cheiro de todas as valetas e, à medida que o tempo passava, a essência se entranhava até em minha alma.
A imagem da pipa rodando, se embolando e voando ao sabor do vento, sem nenhuma linha que a guiasse, sem nada que a prendesse, ainda estava viva em minha mente. Era a liberdade personificada naquele brinquedo seguindo seu destino.
― Pipa no alto não tem dono! ― gritou alguém.
Todos corremos, seguindo a sina da pipa, embalada pelo vento das férias. O número de catadores que saíam em perseguição sempre era diretamente proporcional à sua beleza e aos joguinhos que ela dava. Em compensação, o número dos que chegavam até a sua queda era inversamente proporcional à força do vento.
Papagaio, Cafifa ou Maranhão: o nome não importava. Enquanto a beleza seduzia, o vento desanimava e selecionava os competidores. Só os tenazes continuavam. Às vezes, ela aprumava, pegava altura e conquistava a eternidade.
― Será que existe um cemitério de pipas? ― perguntou-me um dia um amiguinho.
― Sei lá... Só se for os fios, as árvores, as construções bem altas...
― É... ― e deitados na grama em dia sem vento, filosofávamos. ― Mas deve existir um paraíso para aquelas que sobem e somem na imensidão do céu.
Os mais fracos iam ficando para trás, desistindo. Uma rajada de vento pegava por baixo dela e a levantava. Nesse momento, todos parávamos e víamos se ela iria descair e a direção que iria tomar. Depois, seguíamos novamente na perseguição. Só corríamos, não ouvíamos nada, não enxergávamos quase nada. A visão mirava o alvo e às vezes se voltava para o chão que pisávamos. Mato, terra, charco, brejo, asfalto, nada importava.
― Olha o carro! ― gritava a buzina.
― Olha o arame! ― reclamavam as costas.
Nossos anjos da guarda trabalhavam em dobro nessa época do ano.
A pipa começava a perder altura. Tínhamos chegado próximo a uma ravina. Éramos apenas três agora, e, numa olhada de relance, pude perceber que havia uma menina no meio. Ela já ofegava e parecia desistir.
― Pega pra mim! ― suplicou com o olhar.
Eu apenas sorri. Ela ficara para trás e arfava sobre a relva. Um outro menino estava mais à frente e parecia que ficaria com o prêmio. Num último esforço, dei um sprint, desci voando e cheguei junto da queda daquele troféu.
― É minha!!! ― gritei vitorioso, agarrando a pipa.
― Peguei primeiro!!! ― bradou o outro com a mão na rabiola.
A água estava pelos joelhos. Ficamos num impasse. Eu agarrado ao cabresto da pipa, ele com as mãos na rabiola; girávamos no mesmo sentido em câmera lenta. Aqueles instantes pareciam perenes. Nisso, do alto da ravina, aparece a menina. Aquela figura frágil, mas ao mesmo tempo imponente, me dava força.
Não é regra, mas é como se fosse um código de honra entre os pipeiros. Reza a tradição que, se ninguém desistir da pipa nessa situação, ela deve ser picada e os restos jogados ao chão.
Olhei para a pipa ― linda, ainda esplendorosa em suas formas ― e para o menino que permaneceu inabalável. A cada vacilada minha, ele puxava o rabo dando um passo e avançando em sua conquista. Olhei também para aquela menina, que já não me era tão estranha. O seu olhar era de desalento.
Então, me lembrei das aulas de catecismo e da história bíblica que aprendera. O rei Salomão fora sábio na decisão do litígio entre as mães que reclamavam a posse de uma criança. A que abdicara de sua parte, o fizera por amor.
― Pode ficar com a pipa, cara ― e, olhando para aquela garota, completei ― Mais vale ver ela no ar do que nesse lugar fedido.
Ela fechou os olhos lentamente. O garoto não falou nada. Pegou-a depressa e saiu correndo. Eu saí do brejo e subi a ravina em direção à menina que sorria. Sentei-me ao seu lado e, pela primeira vez em minha vida, pude curtir um pôr do sol magnífico.
― Nossa, cara, como você está fedendo...
― E você?! Tá pior que a Gata Borralheira depois de uma semana de faxina...


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