Dar e pegar carona são atitudes que pressupõem um estado de espírito de desprendimento. Refiro-me à carona envolvendo desconhecidos, pessoas que nunca se viram e vão manter um primeiro contato ali, naquele instante. Penso também na atitude isolada, garantida em constituição, que é o direito de ir e vir. Nesse momento em que nos deslocamos sós, pensativos e perdidos em nossos solilóquios, com a carona, abrimos mão de nossa individualidade para compartilharmos nosso espaço e nossos pensamentos com outro ser que também deve estar disposto a abrir mão de sua individualidade. Aliás, quando decidimos dar ou pegar carona, parece que queremos distância de nós mesmos. Talvez estejamos azedos e queiramos alguém ao nosso lado que sirva de contraponto, temperando nosso humor. Talvez também estejamos tão adocicados que queiramos espalhar nosso sabor. Ou talvez ainda queiramos só alguém do nosso lado para acabar com nossa solidão. O fato é que quem dá ou pega carona tem de ter a disposição da conversa fútil, sem nenhuma pretensão, ou também da conversa mais reveladora do nosso ser, pois estamos diante de um ser estranho e somos também um ser estranho, às vezes até para nós mesmos. Como a conversa tem de se encerrar ali, naquele espaço e naquela fração do tempo, temos de elaborar conceitos e controlar o fluxo do nosso pensamento. Quer coisa mais desagradável que uma conversa interrompida pelo fim do trajeto? Talvez nunca mais retomemos nossos pensamentos a partir daquele ponto em que paramos. Curiosidades poderão assaltar nossas almas para o resto de nossas vidas e, mesmo que retornemos àquele lugar e fiquemos à espreita, dificilmente conseguiremos dar ou pegar a mesma carona para retornar nossos assuntos. E, ainda assim, se o acaso permitir, como lembrar o ponto, aquele instante, se nossas dúvidas e angústias têm vida própria, são independentes, e nos assaltam nos momentos mais impróprios? Normalmente essa disposição de dar ou pegar carona nos faz conhecer muitas pessoas diferentes. Pessoas que usam máscaras, pessoas que se libertam de máscaras, pessoas que nos colocam máscaras e pessoas que nos tiram nossas máscaras. Agora, difícil mesmo é dar ou pegar carona deixando que o silêncio tome conta de todo o ambiente. Quer uma carona? Seja bem-vindo, então.
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