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sexta-feira, 3 de junho de 2011

Gafanhoto e a lição


Gafanhoto ficou sozinho e começou a pensar. Muitas coisas ficaram claras em sua mente. Agora entendia o porquê de algumas atitudes dos outros. Sentiu ânsias. Ficou tonto. Quando pensou que fosse desmaiar, começou a levitar nos braços do Mestre Zen. Não ofereceu nenhuma resistência, apenas fechou os olhos. Ao som de Geni e o Zepelim, flanava em direção à Grande Pedra.
Mestre Zen amerissou e o ajeitou com carinho. Gafanhoto não queria nem abrir seus olhos. Deitado ainda, ouviu o sopro da sabedoria.
─ Que lição podes tirar desse episódio, Gafanhoto?
Gafanhoto parecia não ter forças para responder ao mestre. Uma lágrima rolou por sua face. As palavras começaram a pesar. Parecia que tinha algo entalado na garganta. Lentamente levantou-se. Olhou para Mestre Zen. Agora, o grande sábio tinha as feições de seu pai. Mestre Zen o envolveu, mais uma vez, com um grande abraço. Gafanhoto chorou, chorou muito. O grande mestre não falou nada. Abraçado a Gafanhoto, acariciava sua cabeça. O tempo parecia não andar. Gafanhoto se afastou do abraço. Olhou para o outro lado e se buscou no infinito.
─ Sabe, Mestre, balbuciou gafanhoto, sempre pensei que eles fossem meus amigos...
─ E são, Gafanhoto. Todos são seus amigos. Apenas têm fraquezas, meu filho. Tu mesmo tens fraquezas. Por isso estamos aqui, neste mundo de imperfeições.
Gafanhoto confrangia sua face. Sua expressão tomava outra dimensão. O mestre entendia que agora seria a hora de retomar sua pergunta.
─ Mas tu ainda não respondeste minha pergunta, Gafanhoto. Que lição podes tirar desse episódio?
Gafanhoto cingiu todos os músculos da face.
─ Desconfiar, Mestre, desconfiar de tudo e de todos.  
O mestre não esboçou qualquer reação àquelas palavras duras. Viu Gafanhoto socar a palma da mão e se virar chutando alguns pedriscos que estavam a sua frente. O grande sábio entendia aquele momento catártico de seu discípulo, mas precisava intervir.
─ Olha, Gafanhoto, o mundo é imperfeito, os seres são imperfeitos. Quando pensas em agir assim, estás prestes a disseminar ainda mais a discórdia e o desamor pelo cosmo.
─ Então, que devo fazer, Mestre?! Calar-me e servir-me de chacota para os outros. Ser usado e descartado ao bel prazer de todos?!
─ Não, meu discípulo. Os seres não são simplesmente justos ou injustos. Bons ou maus. Eles passam por momentos de oscilações comportamentais, provocadas por suas imperfeições ou por situações confusas.
─ Como assim, Mestre?
─ Nem sempre tem-se tempo para tomar decisões. Às vezes decide-se sobre pressão. Noutras vezes até, tomam-se decisões erradas para se acertar mais à frente. Por isso, as mesmas pessoas que nos atacam, num primeiro momento, podem ser aquelas que nos estenderão as mãos numa outra situação.
─ Dizei-me, então, que lição devo tomar, oh! Mestre dos Mestres?
─ Tu deves seguir adiante, de cabeça erguida, sem vergonhas nem remorsos e confiando em tudo e em todos. Mas preste bem atenção, Gafanhoto, deverás sempre estar preparado para enfrentar o inesperado.
Gafanhoto limpou as lágrimas, aprumou-se e desceu a Grande Pedra em direção ao povoado. Tinha muito o que fazer àquele povo.

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